O totalitarismo pós muro de Berlim, tipo Foro de São Paulo, precisa do ateísmo cultural e do relativismo para derrogar o cristianismo cultural, esse resíduo empobrecido do Cristianismo. Destruídos os valores que o fundamentam, acaba a democracia.
Os
recorrentes debates sobre a laicidade do Estado guardam relação apenas
periférica com a questão religiosa. Ela fornece o acompanhamento, mas
pouco tem a ver com o prato principal. Os limites entre Igreja e Estado
já foram objeto de deliberação e o Estado brasileiro, em reta
conformidade com a sintética determinação de Jesus, é laico. A Deus o
que é de Deus e a César o que é de César.
O
rufo de tambores que ouvimos são os de uma declarada guerra, nada
santa, contra a influência do Cristianismo na cultura e nos valores
morais dos indivíduos. E contra o reflexo disso no Direito. Guerra pela
completa abolição dessa influência. Todos, inclusive os militantes do
ateísmo, sabem que: 1º) é quase impossível "desconverter" os indivíduos
de uma fé em Deus para uma fé no Nada absoluto; 2º) é inaceitável pela
sociedade a ideia de um Direito moralmente insignificante, ou que ignore
os princípios e valores compartilhados pelos membros da sociedade.
Diante de tais e tão grandes dificuldades, os militantes do ateísmo
cultural propuseram-se a algo muito mais sutil - querem esterilizar a
moral nos próprios indivíduos. Como? Convencendo você, leitor, por
exemplo, de que os princípios e valores que você adota são, na origem,
tão religiosos (e por isso mesmo tão pessoais) quanto a própria religião
que porventura professe. Integrariam, então, aquele foro íntimo no qual
se enquadrariam a religião e suas práticas. Pronto! Segundo o princípio
da laicidade do Estado, tais princípios e valores só teriam vigência na
vida privada.
As
investidas contra os símbolos religiosos são apenas a ponta do rabo do
gato. O felino inteiro é muito mais pretensioso. E maior. O que pretende
é laicizar a cultura, as opiniões e, principalmente, os critérios de
juízo e decisão. Portanto, toda a conversa fiada sobre supostas
infrações à devida separação entre o Estado e a Igreja precisa ser
entendida como aquilo que de fato é: atitude de quem adotou o Estado, e
só o Estado, por fonte de todo bem, baliza perfeita para o certo e o
errado, e vertente dos valores que devem conduzir a vida social.
Convenhamos, é uma tese. Mas - caramba! - qual é, precisamente, a moral
do Estado? Na prática, a gente conhece... Na teoria, é a que a sociedade
majoritariamente determine, excluída a que moldou a civilização
ocidental. Ou seja, aquela que deriva do Cristianismo, proclamada
inadmissível perante a laicidade do Estado, blá, blá, blá.
Tal
linha de raciocínio não resiste ao primeiro safanão. Precisa de
reforços e apoios propiciados pelo relativismo moral. Cabe a este filho
do pós-modernismo mostrar que a moral majoritária é apenas uma das
tantas que andam por aí através do tempo, do espaço e da miséria humana.
Saem às ruas, então, representações desse moderno mundo novo - Parada
Gay, Marcha das Vadias, Marcha pela Maconha, movimentos ou partidos como
os que dançaram pelados na Câmara Municipal de Porto Alegre ou fizeram
sexo com símbolos religiosos no Rio de Janeiro. Escandalosos?
Escandalosos perante qual senso moral? O totalitarismo pós muro de
Berlim, tipo Foro de São Paulo, precisa do ateísmo cultural e do
relativismo para derrogar o cristianismo cultural, esse resíduo
empobrecido do Cristianismo. Destruídos os valores que o fundamentam,
acaba a democracia pelo simples fato de que esta não se sustenta numa
sociedade política sem princípios, sem valores e sem vergonha.
Publicado no jornal Zero Hora.
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